LACUNAS DA MEMÓRIA

Por maior que seja a quantidade de detalhes que guardamos de nossas vivências, estas cenas nunca serão totalmente nítidas ou seguirão uma narrativa lógica em nossa memória. As lembranças podem surgir de forma estática, como numa fotografia, ou aparecerem diante de nossos olhos como no plano sequencial de um filme, porém de modo fragmentado, pois guardamos as imagens dessa forma. As imagens que agregamos, do quotidiano reconfiguramos, apagamos, tornam-se reminiscências que com o decorrer dos dias passam por um processo de turbidez ou de embranquecimentos em nossos pensamentos.

A partir destes elementos individuais de construção da memória, busco ampliar a reflexão para a experiência coletiva e a memória das cidades, cuja arquitetura tem se transformado de maneira acelerada e desordenada nos últimos anos, criando o que denomino “lacunas da memória”.

Nestas lacunas os referenciais de orientação deixam de existir, pessoas deixam de circular ou mesmo habitar estes locais gerando estranheza e inquietação ao passarmos por lugares que não mais reconhecemos. Deixa de existir uma continuidade daquela memória. Conjuntos arquitetônicos de casas antigas ou mesmo quarteirões inteiros são devastados como se tivessem sido arrebatadas subitamente. Camadas vão assim se sobrepondo aos estilos de determinadas épocas, identificados na materialidade da arquitetura, que vão sendo encobertos, juntamente com suas histórias e memórias.

 

 

Elton Hipolito, 2015.