Ruína Imposta
00:00 / 03:14

Para ativar a obra clique no tocador de música a cima.

RUÍNA IMPOSTA

Desde que o isolamento social foi implementado tivemos que nos adaptar a novos comportamentos e práticas sociais quais não imaginávamos. Diante de tantas mudanças, é normal que nosso corpo e mente percebam o impacto do cotidiano conhecido como em uma sensação latente de desmoronamento moral. Com a perda abrupta desse um cotidiano, emergiu a sensação de desamparo e ansiedade generalizada.

Perante esse contexto, o artista Elton Hipolito investiga a representação do espaço urbano em desmanche paralelo aos efeitos psicológicos e sociais da pandemia, analisando as demolições, tão presentes nos centros urbanos do país, com a própria relação da memória humana, entre o apagamento e a ressignificação de um mesmo espaço. Desse campo investigativo desponta a série (In)Rupturas, da qual a instalação presente faz parte.

 

“Ruína Imposta” anuncia uma demolição eminente, porém não física. A obra é uma externação das angústias até então encobertas, de aceitar-se em ruína acelerada, desconstruindo as noções ideológicas e expectativas até então sedimentadas. Os quadros psicológicos levantados pelo artista, através de leituras, relatos, reportagens e artigos, exaltaram as fragilidades psicológicas e sociais já existentes, que passavam desapercebidas pelo ritmo amortizado da rotina.

A fachada lacrada por tapumes remete a uma imagem já habitual no cotidiano das cidades. Nas frases pintadas, feitas a partir de tijolos coletados de demolições encontradas pela cidade de São Paulo, estão os dizeres que o artista condensou de sua pesquisa. Através da estética e da sonoridade de demolição, Hipolito corporifica na fachada a resiliência humana, o ato de se acostumar a qualquer situação, independentemente de sua consequência.

A ruína é um lembrete de que tudo passa, sendo sua própria condição a efemeridade. A obra sofrerá as intempéries do tempo e por consequência também se desmanchará. Em um mesmo espaço novos usos e significados surgirão. A memória de sua demolição imposta e a necessidade de se readequar, porém, permanecerão de forma latente no imaginário coletivo.


Camila Marchiori